segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Tecnologia e a Relação Pai e Filho
Temos hoje dois grandes blocos que convivem no mesmo território: os nativos digitais, que têm menos de vinte anos de idade, e os imigrantes digitais. Eles não têm a mesma percepção sobre o tempo e sua vivência. Pelo fato de terem sido criados imersos numa tecnologia que fez o mundo espontâneo e simultâneo, os nativos têm uma noção acelerada de processos e a percepção, aprendizado e modo de agir, que difere dos mais velhos. Essa é a razão de, vez ou outra, esses territórios entrarem em conflito.
Em tempos atrás, quando o pai chegava, todos iam ao encontro dele para um abraço. Ninguém encostava na comida antes do pai se sentar à mesa. Todos comiam juntos e aquele era um momento para a família conversar, contar o dia, sorrir e brigar também, coisa natural. Hoje o que vemos é o contrário, quando o pai chega, cada filho vai para um canto diferente, a refeição, devido ao aparecimento do microondas há uns 15 anos atrás, é feita em diversos horários, de preferência na sala em frente ao televisor ou no quarto lendo seus emails. Aquela conversa gostosa da família reunida foi sendo diminuída ao ponto de não existir mais em muitos lares das grandes cidades.
Devido à competitividade, à necessidade da inserção da mulher no mercado, das distâncias entre moradia e trabalho nas grandes cidades, houve na sociedade ocidental uma diminuição significativa no tempo de convivência entre crianças e adultos, que não compartilham mais uma série de valores antes trabalhados.
A vida profissional é um pedaço da vida, não é a vida toda. Tempo é uma questão de prioridade, quando os pais dizem “não tenho tempo para isso”, então “isso” não é prioridade. É preciso rever quais são, de fato, as prioridades, senão o urgente toma conta do importante. Quando o pai deixa de ir à reunião escolar por estar trabalhando, ele também coloca sua família em segundo plano, transferindo a obrigação de educar seus filhos para a instituição escolar.
O que mais prejudica é que, quando encontram seus filhos, os pais querem compensar a ausência com o atendimento de seus desejos, acarretando no jovem a distorção entre desejo e direito.
Nas gerações antigas a criança era tratada como um “mini-adulto”, sem direito a desejos e vontades, sua condição de criança não era respeitada. O que acontece atualmente é que, talvez tenhamos pecado pelo excesso no sentido inverso, passando a tratar a criança como um “rei do trono”. Tudo passaria a ser motivo de trauma para a criança e para o adolescente. Se uma criança apanhava, era castigada, ou apenas repreendida, já se poderia considerar isso como motivo de trauma.
É claro que não estamos falando da prática de maus-tratos contra a criança ou o jovem, e isso é uma questão seriíssima que vem sendo tratada com muito mais respeito, nos últimos tempos, graças também a essa transformação social que se operou, e que mereceria outro momento de discussão.
Mas, nem de longe, podemos pensar que pais e mães não possam repreender seus filhos. Essa é uma função muito importante no processo de educação. A educação é feita com base no afeto que se transmite ao filho, e com base no limite que se pode dar a ele também. A criança precisa conhecer o amor, a amizade, o respeito e a consideração, mas também, quais são os limites que ela tem de respeitar, entre a vida dela e a do outro, para que ela possa tornar-se um ser humano apto para a vida em comunidade.
É só entrar no mundo dos famosos e encontraremos uma série de “fórmulas perfeitas” forjadas por artistas para esconder suas maiores deficiências, a falta de tempo para os filhos. Em um país tão grande quanto o Brasil, o cantor, apresentador ou ator precisa se deslocar constantemente para conseguir dar conta de seus compromissos com o seu público, colocando-o na frente de seu maior bem, a sua família. Então é fácil descobrirmos a causa de tantos divórcios no meio artístico, tantos escândalos e brigas entre pais e filhos, onde uma cantora pop internacional é julgada por maus tratos ou uma ex-modelo acaba agredindo publicamente seu filho. No ambiente da televisão, é difícil saber quem realmente mantém uma relação saudável com os filhos, poderíamos citar a família do Luciano Hulk ou a relação linda e plastificada entre o Fábio Junior e seu filho no Faustão cantando juntos, mas família, a gente só sabe quando está dentro dela.
(Marcelo Fávaro é professor de Língua Portuguesa da rede estadual de ensino de São Paulo e acadêmico da Universidade Federal de São Paulo)
Os Bundões da Mídia e os Pôneis Malditos
Vivemos em um mundo de hipocrisia. Onde o interesse próprio e a falta de talento imperam nas mídias brasileiras.
Outro dia houve um pedido para que “Os Simpsons” fosse proibido de ser veiculado no período diurno. O problema é que ele está inserido dentro da TV Globinho, e esta, por sua vez, apresenta a classificação indicativa de idade livre. Mas teve gente que achou que as atitudes do Homer Simpson agredia a infância brasileira, pois o personagem do desenho bebe, dirige embriagado e vive uma vida pouco saudável. Então você imagina que a população, que sofre com tantos acidentes verdadeiros de trânsito, sofre tanto com a corrupção no país, com a falta de escolas e postos médicos, será que essa população está preocupada com “Os Simpsons” ou será que é a bancada da TV concorrente, a Record, por exemplo, que enxerga nessa denúncia um meio de tirar uma série campeã de audiência do ar?
Da mesma forma, o órgão de controle que fiscaliza os programas de TV e suas faixas indicativas recebeu um pedido para que o “Chaves” fosse retirado e reclassificado perdendo seu título de classificação livre. O motivo? O charuto do Professor Girafales! Imaginem que o professor grandão poderia estar fazendo apologia ao fumo, junto com Seu Madruga, no seriado. Mais uma da concorrência, que vem perdendo audiência para o seriado de sucesso.
Para finalizar, os “Pôneis Malditos” estão na mira do Conar, o conselho de autorregulamentação publicitária. Este vídeo publicitário veiculado pela Nissan já atingiu os 4 milhões de acessos no youtube e, sem dúvida, recebeu o carinho do público. No vídeo, ao invés de cavalos, o motor de uma picape apresenta pequenos pôneis amaldiçoados. O problema, agora na visão dos chatos de plantão, é que o vídeo faz associação de figuras infantis com a palavra maldito. É claro que, se fosse uma das quatro grandes montadoras de automóveis, tudo estaria resolvido, porém como não tiveram a brilhante idéia de criar algo tão irreverente e carismático, o melhor é denunciar, vai que cola? Logo Logo entrarão com um pedido para retirar o Biafra do banco de trás do carro roubado, ele agride a classe dos ladrões de carro que gostam da música do cantor.
Enfim, é de hipocrisia em hipocrisia que o Brasil anda, enquanto a corrupção, os motoristas bêbados e os crimes bárbaros tomam conta do país, nós vamos processando os pôneis malditos e o Professor Girafales.